Eu tive um sonho...

| Press release
* Por Sirlene Cavaliere

Era uma preguiçosa tarde de domingo.  Eu estava lendo um artigo sobre a falta de equidade salarial entre gêneros no Brasil, quando adormeci.

Sonhei que estava em uma sala de reuniões de uma grande empresa.  Olhei para relógio no centro da parede e faltavam alguns minutos para às 9 horas. Ao redor de uma grande mesa retangular, algumas executivas conversavam animadamente sobre recente reportagem veiculada na TV aberta sobre os sapatos meia pata. Elas comentavam que, apesar de altíssimos, em geral esses saltos proporcionavam algum conforto e estabilidade. No auge da discussão, um executivo adentrou a sala de maneira apressada e sentou-se na única cadeira disponível.  Mesmo antes de recuperar o fôlego perdido nos dois lances de escada, o profissional decidiu fazer um comentário para demonstrar seu interesse em se integrar ao grupo feminino. Comentou que tinha assistido à reportagem mencionada e que também gostaria de experimentar esse novo tipo de meia, a  “meia pata”.  As executivas se entreolharam, contendo o riso. Depois de um breve, porém cruel silêncio, decidiram iniciar a pauta da reunião; afinal, o relógio já apontava 9 horas.

Na tentativa de entender a razão do constrangimento provocado por seu comentário sobre a “tal meia”, o executivo repassava mentalmente os últimos diálogos, quando sua chefe interrompeu a discussão para pedir que o executivo se encarregasse de fazer a ata, um sumário dos temas discutidos e respectivo plano de ação.  Suando em bicas, em parte porque a sala estava demasiadamente quente para uma pessoa usando camisa de manga longa, gravata e paletó, em parte pelo constrangimento do pedido inesperado e descabido, o executivo se viu obrigado a pedir para suas colegas repetirem os últimos pontos discutidos.

Momentos depois, nessa mesma sala de reuniões, a líder da área teve uma reunião com a executiva de Recursos Humanos para avaliar o nome de alguns candidatos a promoção. O nome daquele executivo foi colocado em pauta e a líder decretou que ele não estava preparado para a promoção, uma vez que era desinformado, não colaborava nas discussões e, acima de tudo, tinha raciocínio lento.

O vento vespertino passava insistentemente pelas frestas da vidraça, provocando um longo assobio, quando, inesperadamente, uma rajada mais forte provocou uma pancada seca na porta.  Foi assim que despertei e me dei conta de que havia adormecido e que as cenas, que me pareciam tão verossímeis, tinham sido um sonho. Na verdade, um pesadelo, no qual o mundo corporativo era predominantemente feminino e os homens eram exceção, tentando se inserir num mundo desconhecido.

O sonho me fez refletir.

Conhecer mais ou menos sobre futebol, automobilismo, moda ou sapatos não é uma prova de inteligência. É apenas uma questão de interesse.

A habilidade de desempenhar mais de uma tarefa ao mesmo tempo não é mais nem menos importante do que possuir senso de direção. É só diferente.

Para ser justo, o mundo corporativo não precisa ser predominantemente feminino, nem gay, nem deficiente, nem obeso, nem  idoso, nem negro...  Para ser justo, o mundo corporativo precisa ser diverso.

Feliz Dia Internacional da Mulher e do Homem! Feliz Dia do Ser Humano!



* Sirlene Cavaliere é diretora de Marketing & Comunicação da Capgemini  no Brasil